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História e curiosidades do Castelo dos Mouros

Serpenteando por dois cumes da Serra de Sintra, o Castelo dos Mouros remonta aos primórdios da ocupação peninsular pelos mouros, no século VIII.

O Castelo de Sintra, popularmente conhecido como Castelo dos Mouros, localiza-se na vila de Sintra, freguesia de São Pedro de Penaferrim.

Erguido sobre um maciço rochoso, isolado num dos cumes da serra de Sintra, na Estremadura, do alto das suas muralhas descortina-se uma vista privilegiada de toda a sua zona rural que se estende até ao oceano Atlântico.

Castelo dos Mouros
Vista para a vila de Sintra em dia de nevoeiro, no Castelo dos Mouros.
Foto: Naira Amorelli

O historiador Pinho Leal descreveu o Castelo dos Mouros das seguinte forma: “A origem do nome veio de um templo erguido uns 308 anos antes de Cristo, por Gregos, Galo-celtas e Túrdulos, dedicado à Lua. Os Celtas chamavam a Lua de ‘Cynthia’ e quando os Árabes dominaram a região, por não pronunciar o ‘s’, chamavam o local de ‘Chintra’ ou ‘Zintira’.

A pesquisa arqueológica contemporânea, entretanto, revela que a primitiva ocupação da região de Sintra data dos séculos X a VIII a.C. Quando ocorreu a Invasão muçulmana da Península Ibérica, a partir do século VIII a região foi ocupada, tendo a sua povoação recebido o nome de “as-Shantara”. Os estudiosos concordam  em afirmar que foram eles os responsáveis pela primitiva fortificação da penedia, entre o século VIII e o IX, com a finalidade de controlar estrategicamente as vias terrestres que ligavam Sintra a Mafra, Cascais e Lisboa.

Integrante dos domínios da taifa de Badajoz, no alvorecer do século XII, diante da ameaça representada pelas forças de Ali ibn Yusuf ibn Tashfin, que vindas do Norte de África, haviam passado à península visando a conquista e reunificação dos domínios Almorávidas, o governante de Badajoz, Mutawaquil, entregou Sintra, juntamente com Santarém e Lisboa, na Primavera de 1093, ao rei Afonso VI de Leão e Castela, visando uma aliança defensiva, que não se sustentou.

Envolvido com a defesa de seus próprios territórios, o soberano cristão não foi capaz de assistir o governante mouro, cujos territórios vieram a cair, no ano seguinte (1094), diante dos invasores. Desse modo, Lisboa, Santarém e Sintra voltaram ao domínio muçulmano, agora sob os Almorávidas.

Castelo dos Mouros
Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

O destino de Sintra manteve-se associado ao de Lisboa, que viria a ser reconquistada pelas forças de Afonso VI de Leão, para voltar ao domínio muçulmano em 1095, até se entregar definitivamente, a D. Afonso Henriques (1112-1185) em 1147.

Vitor Manuel Adrião grande conhecedor da História de Sintra conta que:

Corria o ano 1147. O alcácer fortificado de Xentra acabara de ser ocupado pelas forças sitiantes de Ibne Arrique. Não se deveria mais viver em luta sangrenta. As espadas e as cimitarras não haviam deixado o repouso das bainhas. Os alaúdes e as cítaras não haviam parado para repousar; os risos, os cantos e as danças descuidaram a interrupção… Houvera acordo: Cristãos e Mouros poderiam coabitar na maior paz e concórdia nesta Meca ocidental, nesta Tulan de antigos e coevos onde o sangue de homem jamais deveria profanar a Terra de Deus.

Assim foi, assim se deu. Ficando firmados no alcácer os acordos de respeito e boa convivência mútuas, os Cavaleiros do manto branco em que se lavrava a Cruz vermelha de Cristo, fizeram-se ao castelo no topo do Monte dos Penedos, altaneiro e misterioso.

Ibne Arrique, ou seja, Afonso Henriques, ia na dianteira. Ele sabia o que os esperava… Dera tempo para a retirada segura dos discretos eremitas e santões Muridj dessa Rábita do Ocidente, dessa Torre da Fé islâmica onde os mais sábios e perfeitos, morabitos reclusos voluntários na Serra da Lua, viviam apartados dos de baixo, dos da almedina vilareja, e tendo a protegê-los externamente uma guarda pouco mais que simbólica de 30 guerreiros, os Refik.

Ante o pasmo não de todos mas da maioria dos Templários, o castelo estava vazio, a mesquita de Fátima, ao lado, despojada das suas relíquias sagradas… não se via vivalma. A vida humana havia desaparecido como por encantamento, como que tragada nas entranhas cavernosas desta Serra teimando, contrariando todos os acidentes próprios à vulgar natureza do homem, em manter a condição milenar de Sagrada, essa mesma advinda dos alvores do Gênero Humano.

O olhar mais atento de alguém, talvez o Grão-Mestre Gualdim Pais, acaba percebendo, por entre as brumas da serrania e à porta da fortaleza, um vulto humano. Era um velho, um ancião de Xentra que recebe Ibne Arrique com um sorriso repleto de enigma, e logo após lhe entregar a Chave da Rábita retira-se subindo por ponto adarve, assim também esse velho desaparecendo nas entranhas do mistério… o último Muridj ou Mouro de Xentra.

Foi assim que  alguns dizem que Sintra foi “conquistada” aos Mouros, na narrativa das crônicas e lendas antigas, não com estas palavras textuais mas com as de cada autor e todos de acordo quanto à descrição do acontecido.

Como puderam desaparecer tão misteriosamente os mouros do castelo? Por onde desapareceram? Para onde foram?

Castelo dos Mouros
Castelo dos Mouros. Foto; Naira Amorelli

Certo é que havia uma “boca de fuga”, e esta estaria junto à torre albarrã, numa tulha escondendo um túnel ligando o castelo a Rio de Mouro que então ainda não existia como povoação, apenas com uns míseros e dispersos casebres na paisagem plana, então enfeitada com o arraial de D. Afonso Henriques – seriam 6 a 8 quilômetros em linha reta, de caminho subterrâneo. Será que isso foi verdade?

A verdade é que o Rio de Mouro (antes, de Mouros) existe e o túnel ou gruta também, precisamente em Colaride, no limite oeste do Cacém e que então pertencia à freguesia do Algueirão – Rio de Mouro. Ainda hoje corre aí a Ribeira das Jardas que separa as duas freguesias, sendo curioso que a palavra árabe cacéme (donde cacém) significa precisamente “a divisão”.

Esta gruta de Colaride é também denominada “Gruta dos Mouros”, “Fojo dos Mouros”, “Algar”, etc. Possui quatro poços sendo o maior de 12 metros de profundidade, dois com uma profundidade de 7 metros e um último com 4 metros. No fim do primeiro poço existe um sifão temporário.

Sendo uma gruta própria para especialistas em espeleologia, não é recomendável a visita a ela por curiosos incautos devidos aos perigos que a sua estrutura acidentada apresenta, já aí tendo ocorrido alguns acidentes graves.

No seu interior, correm duas ribeiras subterrâneas e há uma cascata de 15 metros de altura e um lago, havendo alguns corredores e galerias de grandes dimensões que já foram designados com nomes como “Sala das Lamas” ou “Sala do Túmulo” (este último titulo é bastante significativo, por um fato mantido secreto mas que descreverei mais adiante).

É desta gruta pré-histórica ligando o topo da Serra de Sintra à campina mais adiante que a cerca, que o Algueirão herda o seu nome, pois o nome árabe Al-Gueirum, plural de “Algar”, significa exatamente “Caverna”. Mais adiante desta localidade, levanta-se a Serra das Minas!…

A verdade é que debaixo do Castelo dos Mouros existe uma imensa gruta natural que é das mais belas da Serra, entrando-se por baixo (está vedada por uma porta de ferro) junto ao caminho que leva à entrada principal no mesmo. Junto a ela passam diariamente inúmeros visitantes, por certo completamente alheios da maravilha natural que aí se esconde.

Há ainda a lenda da “Moura dos Sete Ais” (Seteais) que deu sete suspiros pelo cavaleiro cristão, talvez Templário, D. Mendo de Paiva, quando este a viu com outros mouros escaparem-se por uma porta secreta no Castelo e a fez prisioneira…

Trata-se de uma “lenda de amor” inserida no hall das lendas de “Mouras encantadas”, tal qual aquela outra versão da moura Zaida, filha do alcaide do castelo, dada de amores por um cavaleiro cristão mas que desapareceu nas entranhas da Terra por uma passagem secreta que a lenda diz haver aí, no próprio castelo, na parte que hoje dá para o fronteiro Palácio da Pena ou da Penha.

Outra referência não menos misteriosa do Castelo dos Mouros, está na lenda que sob a sua cisterna se encontra enterrado e trancado, num sarcófago de bronze e prata, um Rei Mouro, até hoje protegido por uma horda  implacável de demnios ou djins, tão caros à tradição religiosa islâmica!…

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Muito mais tarde, reinando D. João V, o naturalista francês Merveilleux afirmou, no relatório que lhe encomendou o monarca, ter visitado o mundo subterrâneo sintrense e lá encontrado pedras preciosas, indo assim confirmar as afirmações dos antigos geógrafos árabes.

O destino de Sintra manteve-se associado ao de Lisboa, que viria a ser reconquistada pelas forças de Afonso VI de Leão, para voltar ao domínio muçulmano em 1095, até se entregar definitivamente, a D. Afonso Henriques (1112-1185) em 1147.

Castelo dos Mouros
Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

Visando o seu repovoamento e defesa, o soberano outorgou Carta de Foral a Sintra em 1154, quando terá determinado reparos nas suas defesas, dotando-a de um templo, a Igreja de São Pedro de Canaferrim.

O seu filho e sucessor, D. Sancho I (1185-1211) também dispensou cuidados ao castelo, remodelando e reforçando-lhe as defesas. Assim também procedeu, séculos mais tarde, D. Fernando I (1367-1383), tendo o castelo sido assaltado por tropas de Castela no contexto das chamadas Guerras fernandinas.

À época da crise de 1383-1385, era seu Alcaide-mor D. Henrique Manuel de Vilhena, que tomou o partido por D. Beatriz, somente entregando este castelo “forte e muito alto e fragoso” que lhe fora confiado após a vitória de João I de Portugal na batalha de Aljubarrota.

Posteriormente, diversos soberanos portugueses elegeram Sintra para sua estadia, demorando-se no “Paço Régio”, construído para esse fim e sucessivamente ampliado e melhorado ao longo dos séculos (Palácio Nacional de Sintra), tendo a povoação se desenvolvido em torno deste novo núcleo.

O castelo manteve-se, por essa razão em segundo plano, entrando em decadência, principalmente após o século XV, face à expulsão dos judeus do país, então os seus únicos habitantes. No século XVI encontrava-se desabitado. A queda de um raio causou-lhe danos à Torre de Menagem (1636), danos fortemente aumentados pelo terremoto de 1755.

No século XIX, sob o segundo reinado de D. Maria II (1834-1853), o seu consorte, Fernando II, sob o impulso de redescoberta da Idade Média proporcionado pelo Romantismo, tomou, em 1839, o antigo castelo por aforamento à Câmara Municipal de Sintra pela quantia anual de 210 Réis, promovendo-lhe amplas obras de reconstrução que, embora de caráter amador, tiveram o mérito de sustar o avançado estado de degradação em que a estrutura se encontrava.

Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

Ao gosto imaginativo da época foram adicionados locais de contemplação, caminhos de acesso e vegetação abundante, transformando-o em uma atração turística.

O Castelo dos Mouros e a cisterna encontram-se classificados como Monumento Nacional por Decreto publicado em 23 de Junho de 1910. A intervenção do poder público português no monumento iniciou-se em 1939, com a reconstrução de suas muralhas.

Após intervenções menores (1954, 1965), em 1986 procederam-se trabalhos de limpeza e reconstrução de alvenarias, degraus e alamedas em várias zonas do castelo, repetindo-se os trabalhos de limpeza das muralhas em nova campanha, em 1992.

Castelo dos Mouros
Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

As suas muralhas são constituídas por uma cintura dupla, exterior e interior. A Leste ainda são visíveis resquícios da muralha exterior, onde se localiza a porta em rodízio de acesso ao recinto.

Além das muralhas ameadas, torres e adarves, o conjunto é completado por diversas rampas e escadarias de acesso.

Um outro elemento digno de nota é a porta árabe em arco em ferradura. A muralha apresenta cinco torres: quatro de planta retangular e uma de planta circular erguidas por merlões piramidais, já sem vestígio dos dois pisos e do sistema de cobertura primitivos.

Castelo dos Mouros
Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

A torre na cota mais elevada do terreno, conhecida também por Torre Real, é acedida através de uma escadaria de 500 degraus. No período islâmico constituiu-se na alcáçova. No período cristão consta que lá terá vivido Bernardim Ribeiro, escritor português do século XVI.

Ao longo de toda propriedade, resíduos de uma pequena igreja românica mantêm-se intactos e, a mando de D. Fernando, foi organizado em um pequeno túmulo, com uma cruz no seu topo, algumas ossadas que ao remexer entulhos foram sendo encontradas.

Castelo dos Mouros
Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

No interior do castelo, próximo ao Portão de Armas, ergue-se uma igreja devotada a São Pedro, a Igreja de São Pedro de Canaferrim. Remonta ao século XII, erguida após a conquista do castelo por D. Afonso Henriques, tendo se constituído na primeira igreja paroquial de Sintra.

Escavada em 1981, a antiga igreja de São Pedro de Canaferrim revelou, à sua volta, a existência de um nível de sepultamentos medievais.

Apesar da inexistência de espólio numismático que permita datar, com precisão, a necrópole, a sua tipologia – bem como os dados históricos relativos à igreja (construída nos finais do século XII e já abandonada no século XV) – apontam para uma época arcaica.

Assim, as sepulturas até agora escavadas poderão eventualmente remontar aos finais do século XII – inícios do XIII. Na região os principais paralelos para este tipo de sepulturas medievais encontram-se na próxima necrópole medieval da Igreja Matriz de Santa Maria, bem como na necrópole rural de São Miguel de Odrinhas.

Castelo dos Mouros
Cova original, preservada no Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

Contígua à Igreja de São Pedro de Canaferrim, destaca-se uma cisterna de grande capacidade, que remonta ao período islâmico. Com as dimensões de 18 metros de comprimento por 6 de largura e 9 de altura, em seu interior abobadado brota a nascente que abastecia o Palácio Nacional de Sintra.

O seu reservatório foi reconstruído após o grande terremoto de 1755. É percebida pelo visitante através de duas grandes aberturas cônicas de ventilação.

Castelo dos Mouros. Foto: Naira Amorelli

Como chegar

Para chegar ao grandioso monumento, visível já da vila de Sintra, é preciso subir a Rampa da Pena, um caminho sinuoso que corre pelo interior da serra. Este espaço foi sendo, ao longo dos séculos, não só ocupado por obras de valor artístico e histórico como também pelos mais variados espécimes botânicos, muitos deles de caráter raro e exótico.

Com informações de: NCultura


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